Você pode nunca ter ouvido falar em neodímio. Mas ele pode estar no fone com que você escuta música, no alto-falante do celular ou no motor de um carro elétrico. Esse metal faz parte de um grupo de 17 elementos químicos conhecidos como terras raras. São materiais que ajudam a fabricar tecnologias cada vez mais presentes no dia a dia.1, 4
O Brasil tem grandes reservas desses elementos. A oportunidade, porém, não está apenas debaixo da terra. Está também nas fábricas, nos laboratórios e nos profissionais capazes de transformar o material extraído em produtos de maior valor.
O nome engana: não é um tipo de terra
As terras raras são elementos metálicos. O nome vem da época em que certos compostos minerais eram chamados de “terras”. Muitas não são tão escassas na natureza. O difícil é encontrar depósitos que compensem a exploração e conseguir separar elementos com características químicas parecidas.1
Imagine um pacote com grãos muito semelhantes misturados. Encontrar o pacote é uma etapa. Separar cada tipo de grão, com a qualidade exigida por uma fábrica, é outra. Na mineração, essa separação depende de processos físicos e químicos.
Onde elas aparecem na nossa vida?
| Onde estão | Exemplos | O que ajudam a fazer |
|---|---|---|
| Celulares e fones | Neodímio | Produzir ímãs pequenos e fortes para componentes como alto-falantes. |
| Carros elétricos e energia eólica | Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio | Fabricar ímãs usados em determinados motores e geradores. |
| Medicina | Gadolínio e lutécio | Compor produtos de contraste de ressonância e detectores de exames PET. |
| Internet | Érbio | Amplificar sinais de luz em sistemas de fibra óptica. |
| Vidros e iluminação | Cério, európio e ítrio | Polir vidros e compor materiais ópticos e luminescentes. |
Fontes: USGS; CETEM. Aplicações variam conforme o composto, a liga e o projeto do equipamento.
Motor não é bateria. O lítio não pertence ao grupo das terras raras. E nem todo carro elétrico usa ímãs desse tipo no motor: existem outras tecnologias. As terras raras são importantes para a transição energética, mas não são combustíveis nem a única solução disponível.1, 5
Da mina ao ímã: o caminho que agrega valor
O material que sai de uma mina ainda precisa ser transformado. De forma resumida, o caminho pode ser dividido em três grandes momentos:
Esquema simplificado. O processo real muda conforme o depósito e o produto. Fontes: CETEM e governo do Canadá.
É como a diferença entre vender um ingrediente e fabricar um produto com ele. O produto acabado incorpora trabalho, tecnologia e outras matérias-primas. Isso pode ampliar a atividade econômica, mas também exige mais capital, escala e compradores. Um preço de venda maior, sozinho, não garante lucro.
O Brasil tem potencial. A produção ainda é pequena
O contraste aparece na produção mineral estimada de 2025. A China extraiu 270 mil toneladas de terras raras, em óxidos equivalentes. O Brasil ficou em cerca de 2 mil toneladas. Isso significa que o volume chinês foi aproximadamente 135 vezes maior.2
Quanto cada país produziu?
Estimativas de 2025 · toneladas de óxidos de terras raras equivalentes
É importante não confundir três medidas:
| Conceito | Em linguagem simples | O que não significa |
|---|---|---|
| Reserva | Parcela de um depósito considerada economicamente aproveitável nas condições avaliadas. | Metal puro já disponível para venda. |
| Produção mineral | Quantidade obtida pela atividade de mineração em determinado período. | Domínio de todas as etapas industriais. |
| Separação e refino | Processos para recuperar e purificar os elementos. | Fabricação automática de ímãs ou motores. |
Conceitos resumidos a partir do USGS, CETEM e governo do Canadá.
Por que a China tem tanto peso?
A força chinesa vai além das minas. O país consolidou uma rede de fornecedores, fábricas e conhecimento industrial. No recorte das terras raras usadas em ímãs, sua participação cresce nas etapas seguintes à extração.3
O domínio aumenta depois da mina
Participação da China na cadeia de terras raras para ímãs · 2024
Essa concentração preocupa países e empresas: uma interrupção no fornecimento pode afetar fábricas em vários lugares. A disputa envolve segurança industrial e tecnológica, além de comércio. As terras raras têm importância estratégica muito maior do que seu volume pode sugerir.3
Goiás coloca o tema perto da gente
A mina Pela Ema, da Serra Verde, em Minaçu (GO), mostra como a discussão internacional chega ao Centro-Oeste. A operação começou a produzir em 2024 e passou a integrar a USA Rare Earth em setembro de 2026, conforme comunicado da companhia.7
Há uma diferença importante nos contratos: a compra de uma empresa, a concessão para minerar e o compromisso de vender sua produção não são a mesma coisa. No caso da Serra Verde, o prazo de 15 anos divulgado refere-se a um contrato de fornecimento da primeira fase de produção. Não deve ser apresentado como se fosse, por si só, o prazo da concessão de lavra.8
No Brasil, os recursos minerais pertencem à União, independentemente de quem seja o proprietário do terreno. A Constituição assegura ao concessionário a propriedade do produto da lavra, nas condições legais. Isso não transforma o comprador de uma mineradora em dono de todas as reservas do país.9
E o que a população pode ganhar?
A mineração pode gerar empregos, compras de fornecedores e arrecadação. Uma das receitas públicas é a CFEM, compensação financeira pela exploração mineral. Pela regra geral informada pela ANM, as terras raras entram na alíquota de 2% das “demais substâncias minerais”, observadas as regras de cálculo. Não é uma participação de 2% no lucro.10
A arrecadação é distribuída entre União, estados e municípios segundo critérios legais. O benefício local depende também de como esses recursos são aplicados e de como o empreendimento convive com as comunidades.11
O desafio industrial é ampliar os resultados para além da extração. O projeto MagBras busca desenvolver a cadeia brasileira de ímãs, da pesquisa e do beneficiamento à fabricação e à reciclagem. A política nacional sancionada em setembro de 2026 também prevê instrumentos para estimular essa transformação.6, 13
Energia mais limpa exige mineração responsável
Produzir equipamentos de menor emissão não elimina os impactos de sua fabricação. A exploração de terras raras exige avaliar uso de água e energia, reagentes, resíduos, recuperação de áreas e efeitos sobre a população.
Alguns minérios contêm urânio e tório associados, que podem gerar resíduos com radioatividade natural concentrada no processamento. O risco não é igual em toda mina: depende das características do depósito e da rota industrial.12
As decisões precisam considerar o processo completo. Quem assume os custos? Que empregos são criados? Onde ocorre o processamento? Como serão tratados os resíduos? Quanto valor fica no país?
Quais caminhos o Brasil pode seguir?
| Caminho | Oportunidade | Desafio |
|---|---|---|
| Exportar concentrados | Gerar receita com a produção disponível. | Continuar dependente de etapas industriais externas. |
| Fazer parcerias | Atrair capital, compradores e conhecimento. | Negociar contrapartidas e evitar dependência excessiva. |
| Desenvolver a indústria nacional | Ampliar capacidade tecnológica e empregos qualificados. | Obter escala, financiamento, tecnologia e mercado. |
| Investir em reciclagem | Recuperar materiais já usados e diversificar o fornecimento. | Organizar coleta e processos economicamente viáveis. |
Síntese editorial a partir dos desafios descritos pelo CETEM e pelo governo do Canadá; não representa previsão de retorno financeiro.
O país não precisa resolver tudo de uma vez, mas precisa saber aonde pretende chegar. Exportar, diversificar parceiros e construir capacidade industrial podem fazer parte da mesma estratégia. A questão é garantir que cada passo contribua para o seguinte.
A riqueza do subsolo abre uma porta. Transformá-la em desenvolvimento depende das decisões tomadas acima dele.
Para consultar: os 17 elementos da família
Vidros ópticos, catalisadores e algumas baterias.
Polimento de vidro e catalisadores.
Ímãs, ligas e pigmentos.
Ímãs de alto desempenho e lasers.
Pesquisa e aplicações radioativas especializadas.
Ímãs de samário-cobalto.
Materiais luminescentes.
Compostos de contraste para ressonância.
Ligas magnéticas e materiais luminescentes.
Melhoria de ímãs em condições exigentes de temperatura.
Lasers e aplicações especializadas.
Fibra óptica e lasers.
Lasers e fontes de radiação especializadas.
Lasers e tecnologias de precisão.
Detectores de PET e aplicações médicas.
Ligas de alumínio.
Cerâmicas, materiais ópticos e iluminação.
Exemplos resumidos. Fontes: USGS e Royal Society of Chemistry.
Fontes e notas da reportagem
Texto e infográficos: Jornal da Comunidade. Fontes consultadas em 1º de novembro de 2026. Os gráficos mantêm anos, unidades e recortes próprios de cada base.
- USGS — O que são terras raras. Definição dos elementos e ocorrência geológica.
- USGS — Mineral Commodity Summaries 2026. Produção mineral estimada de 2025; toneladas de óxidos equivalentes.
- IEA — Rare Earth Elements, 2026. Participação chinesa em 2024 na cadeia de terras raras para ímãs.
- USGS — Aplicações dos elementos. Ímãs, óptica, iluminação e medicina.
- Departamento de Energia dos EUA — Motores elétricos.
- CETEM — Projeto MagBras. Desenvolvimento brasileiro da cadeia de ímãs.
- USA Rare Earth — Conclusão da operação com a Serra Verde. Comunicado empresarial de 4 de setembro de 2026.
- Serra Verde — Contrato de fornecimento. Comunicado empresarial de 24 de agosto de 2026; contrato de fornecimento por 15 anos.
- STF — Constituição Federal, artigo 176.
- ANM — Compensação Financeira pela Exploração Mineral. Conceito, incidência e alíquotas.
- ANM — Distribuição da CFEM.
- EPA — Resíduos da mineração de terras raras.
- MDIC — Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
- Governo do Canadá — Cadeia dos ímãs permanentes.
- Xafurdaria — Vídeo que motivou a pauta. Referência inicial da pauta.
- Royal Society of Chemistry — Promécio.




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