Ela vem do grego (quase sempre eles): “grammatikee”, depois “litteratura”, derivada de “littera”, letra, com seu início em terras helênicas de forma oral.

Arte de compor textos, seja em que formato for. Em prosa ou verso, se considerarmos a classificação padrão. Em tempos modernos, temos outras representações literárias, como as HQs, ou histórias em quadrinhos. Estas, mesmo sem a obrigatoriedade de apresentar textos, em qualquer língua, ainda assim considero literatura (a “letra” fica embutida no pensamento do leitor que acompanha a obra em quadrinhos do começo ao fim).

Em artigo publicado dia 04/08/2025, intitulado “A ponte entre o presente e o passado, como a literatura nos salva do esquecimento”, o escritor Marden M. Soares nos lembra que “por meio de narrativas históricas, a literatura resgata memórias negligenciadas e nos alerta contra erros do passado”.

Num período turbulento como este que estamos passando, inclusive em nível mundial, e cada vez mais fluido e líquido, como tão bem descrito por Zygmunt Bauman em suas obras (vide “Modernidade Líquida”, entre outros), em tempos de tsunami informacional da grande rede e das IAs, de muita leitura pulverizada em textos minúsculos de qualidade duvidosa e lidos na rapidez de um raio, com absorção de uma lufada de vento, a arte literária se faz necessária até como tábua de salvação do homem neste mundo da pós-modernidade.

Como espécies de literatura escrita, destacam-se: a epistolar; as crônicas: os contos; os romances; e a poesia. Essa sequência corresponde para mim à gradação em termos de complexidade e dificuldade.

Cartas entendo que existem desde priscas eras, a mais simples e fácil arte literária.

Porém se destacam cartas de grandes escritores que inclusive se transformaram em bons livros, como por exemplo aquelas trocadas entre o português José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura de 1998) e o brasileiro Jorge Amado em “Jorge Amado e José Saramago, o mar por meio, uma amizade em cartas”, cuja recomendação não posso me furtar.

Crônica, descrevendo acontecimentos e narrativas do cotidiano, é espécie muito apreciada e possui, em língua pátria, excelentes representantes como Rubem Braga, Luis Fernando Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e Nelson Gonçalves, apenas para citar os que para mim foram os maiores.

Já se disse que conto é uma crônica alongada, ou um curto romance. Isso se nos detivermos apenas na questão do tamanho do texto. Mais significativo é seu estilo e suas características.

Aqui no meu pensar é que a genuína ficção se inicia, e com ela a maior dificuldade que surge em sua escrita. É onde a criatividade do autor começa a se revelar mais presente. São exemplos pátrios: Machado de Assis, Carlos Heitor Cony, João Guimarães Rosa, Lima Barreto e Lygia Fagundes Teles.

Romance é criatividade pura. Muitas vezes história, mas sobretudo ficção. Os bons prendem a atenção do leitor da primeira à última página, e normalmente são muitas, dezenas, centenas.

Uma das mais difíceis e prazerosas artes literárias, em solo pátrio temos muitos grandes romancistas: Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Aluísio Azevedo, Chico Buarque, João Ubaldo Ribeiro e Érico Veríssimo, apenas para citar os que mais aprecio.

Poesia é sensibilidade pura de quem tem a coragem de escrever, porque é sobretudo um ato de coragem, e porque não dizer coragem também de quem tem a ousadia de ler. Poesia é a mais difícil e complexa das artes literárias, tanto para quem escreve, quanto para quem lê.

Como arte literária por excelência, na forma e no conteúdo, vale tudo, a criatividade e a ousadia são os faróis.

Antes “travada” nas rígidas regras métricas de versos “amarrados”, apesar de belos, hoje se produz poesia das mais variadas formas. Destaca-se nesse sentido a poesia dita concreta, onde o visual é tão, ou às vezes até mais, importante que o texto (subtexto) em si, a mais das vezes uma combinação entre esses elementos (Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Hélio Pignatari).

Outro destaque que se faz necessário é a poesia em forma de “haikai” de origem japonesa e com boa aceitação em terras brasileiras, cujo maior expoente foi o poeta e escritor paranaense Paulo Leminski.

O solo brasileiro foi e é fértil de grandes poetas: Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Cora Coralina, o já citado Paulo Leminski, e Mário Quintana, esses os meus favoritos.

Para finalizar, lembro de um dos melhores ensinamentos de minha saudosa mãe que martelava na cabeça de todos os filhos praticamente todos os dias: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê !”.

E como homenagem ao grande Paulo Leminski, deixo vocês com três haikais geniais de sua autoria:

“Minha mãe dizia
– Ferve, água!
– Frita, ovo!
– Pinga, pia!
e tudo obedecia”

“En la lucha de clases
Todas las armas son buenas
Piedras
Noches
Poemas”

“Acaso é esse encontro
Entre o tempo e o espaço
Mais do que um sonho que eu conto
Ou mais um poema que eu faço?”

JOSÉ ROSA SOARES FILHO

(Lauro de Freitas – BA, 29.10.2026)

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